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1355 – Fundação da Igreja da Penha Longa

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O Mosteiro de Nossa Senhora da Saúde da Penha Longa fora uma circunscrição administrativa eclesiástica regular conventual integrante da instituição canónica da Ordem monástica de São Jerónimo, localizada no sítio homónimo da Serra de Sintra e funcionalmente existente entre c. 1355 e 1834.

A actual Quinta da Penha Longa ocupa, mais ou menos, o antigo couto, pertença do mosteiro com o mesmo nome. As suas origens remontam ao século XIV, altura em que ressurge o movimento eremítico por toda a Europa com especial destaque para a Itália e, mais tarde, a partir daqui, para vários outros países católicos como é o caso de Portugal e Espanha.

Cresciam cada vez mais as congregações que tomaram como inspiradora a figura penitente de São Jerónimo no deserto da Cálcis. São Jerónimo transforma-se mesmo num verdadeiro herói da época, não admira, por isso, que tenha obtido uma quantidade significativa de seguidores. O culto hieronimita ibérico recebe uma importante influência do quattrocento italiano.

No caso português, a introdução do culto deve-se a Frei Vasco Martins, monge natural de Leiria, que no final do século XIV funda o primeiro convento seguidor da ordem de São Jerónimo. Passou vários anos em Itália e durante a sua estadia em Florença foi discípulo do célebre Tommasuccio da Foligno, hoje mais conhecido como Frei Beato Tomás de Siena. Terá sido aqui que interiorizou a nova doutrina hieronimita. Depois de Itália, e após a morte do seu mentor, Frei Vasco Martins, passou por Madrid onde se deteve durante algum tempo com o objectivo de, por um lado juntar alguns membros desta congregação que se encontravam dispersos e, por outro, fundar um convento hieronimita, que o Bispo de Toledo não autorizou. Finalmente, nada mais tendo a fazer no reino espanhol, dirigiu-se para Portugal e pensa-se que terá chegado no ano de 1355. No mesmo ano, terá falado com o Rei D. Afonso IV que o apoiou na ideia de fundar um convento hieronimita.

Contudo, o terreno para a instalação do novo cenóbio só foi adquirido em 1390, faltando apenas a autorização da entidade papal para o início das obras. A autorização pontifícia do Papa Bonifácio IX chegou apenas em 1400. A Bula papal autoriza a criação da Ordem de São Jerónimo em Portugal, independente daquela que existia na província de Espanha. Para que esta autorização fosse concedida muito contribuiu o dedicado empenho da infanta Dona Isabel de Borgonha. Assim, a bula autorizou a fundação canónica e jurídica do mosteiro da Penha Longa, que se tornou na primeira sede da Ordem de São Jerónimo no reino português. Frei Fernando João foi nomeado seu Prior.

De notar que a localização do mosteiro, no sopé meridional da serra de Sintra, era um local que estava de acordo com a ideologia e os ensinamentos do pensamento hieronimita tais como as noções de desprendimento material, a ligação à natureza como meio privilegiado de meditação, oração e a valorização dos estudos e das actividades intelectuais. Este último factor fez com que alguns círculos da nobreza cortesã e de outros círculos mais preparados intelectualmente visitassem o cenóbio regularmente. Ao longo da História do convento, o apoio régio conjugou-se com o mecenato das grandes casas nobres do reino, como a de Monsanto, a dos Távoras, a dos Ribafrias, alcaides-mor de Sintra ou a dos marqueses de Cascais que chegaram mesmo a ter pousadas próprias nos domínios do mosteiro.

Este Mosteiro fora fundado c. 1355 pelo Padre Frei Vasques Martins de Leiria, membro familiar da Casa dos Condes de Santa Cruz e discípulo do fundador italiano daquele instituto de vida consagrada com inspiração franciscana terceira, Frei Tommasucchio da Foligno de Siena, tendo sido o seu primeiro núcleo pioneiro em Portugal, a partir de uma primitiva Ermida de Nossa Senhora da Piedade, desde 1383.

Posteriormente, em 1372, o Papa Gregório XI, através da sua Bula particular Salvator humanis generi, ordena à congregação eremítica embrionária estabelecida na Penha Longa que professe sob a Regra canónica de Santo Agostinho, com vista à sua integração na Ordem de São Jerónimo, fundando a sua subsequente presença organizada na Península Ibérica, reunindo a jurisdição territorial dos Reinos de Castela, Aragão e Portugal.

Em 1390, o Rei D. João I, por consequência estimulada da aprovação papal, patrocina a aquisição patrimonial do sítio do Penedo dos Ovos, com vista à edificação do monumento conventual, e, em 1400, o Procurador comunitário Frei Fernando Eanes regressa investido como Prior instalador da profissão monástica, após uma ligeira demora ocorrida na conclusão do processo de confirmação apostólica e devida a vicissitudes político religiosas do Grande Cisma do Ocidente.

Em Carta Régia de D. João I, emitida em 25 de Janeiro de 1431, e confirmada por D. Afonso V em 1439, refere-se dever-se a primeira edificação monástica à Infanta D. Isabel, Duquesa de Borgonha, durante a primeira metade do séc. XV, prosseguindo ao longo do tempo com diversas campanhas de obras ou empreitadas, durante este último reinado e incomprovadamente atribuídas a cargo do arquitecto régio Mestre Gil de Sousa.

Face à intransigência nacionalista da Dinastia de Avis, a Ordem de São Jerónimo independentiza-se em Portugal face à jurisdição castelhana, por Bula pontifícia do Papa Nicolau V de 1448, tornando-se o Mosteiro da Penha Longa a sede portuguesa da Ordem até 1517, com sucessiva proeminência hegemónica de Santa Maria de Belém.

Pouco antes, em 1439, o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra e Regente do Reino, instrui D. Afonso, Senhor de Cascais, para delimitar a cerca do couto conventual (posteriormente confirmada pelos Reis D. Filipe II em 1598, D. Filipe III, D. José, D. Maria I e D. Pedro IV). Contando sempre com o apoio expresso dos Alcaides-Mor de Sintra (das famílias Távora e Ribafria), o Mosteiro teve os seus Estatutos aprovados em 1466.

Posteriormente, o Rei D. Manuel I enceta um novo ciclo na vida conventual do Mosteiro da Penha Longa, realizando várias empreitadas de ampliação arquitectónica (em 1503, 1511 e 1519), mandando ainda construir uma residência régia para albergar a frequente presença ocasional da Corte, o que gera a instituição de um significativo foco cultural especializado no ensino científico e de gramáticos a leigos jovens e noviços.

No século XIV, o mosteiro prosperava. A propriedade, que entretanto tinha crescido, foi delimitada por muro, e contava com fontes, pedreiras próprias, fornos de pão e de cal, azenhas e solos bastante férteis. Ou seja era já uma propriedade com um importante valor a vários níveis. Contudo a época de ouro para a Ordem hieronimita estava ainda por vir. É no século XVI que a Ordem e o mosteiro ganham uma maior importância. Nesta nova centúria foi beneficiado com obras de restauro, consolidação e ampliação, patrocinadas tanto por D. Manuel I como pelo seu sucessor D. João III, e ainda por príncipes e infantes que muitas vezes recolheram a ele em períodos de luto ou reflexão. D. Manuel I mandou construir uma hospedaria para abrigar os fidalgos da sua corte, quando para ali iam caçar ou simplesmente respirar os bons ares da serra. O Infante D. Luís, o Cardeal-Rei D. Henrique foram outras das importantes figuras que habitaram este cenóbio, o Cardeal chegou mesmo a viver lá durante o tempo de uma das suas regências.

Inicialmente consagrada sob a protecção espiritual do orago de Nossa Senhora da Vitória em finais do séc. XIV (em memória do triunfo português no conflito ibérico da Batalha Real dita de Aljubarrota), a igreja conventual muda a sua invocação para a de Nossa Senhora da Saúde, em 1569, em virtude da cura miraculosa de doentes pestíferos acolhidos aqui, evadidos de Lisboa e inoculados aquando do desembarque de tripulações chegadas da Índia.

Tradicionalmente, a imagem da padroeira fora doada por Rui de Ataíde, Capitão de Malaca, e transportada na frota naval comandada por Vasco da Gama no regresso da sua primeira viagem à Índia, tendo sido zelada na Igreja Paroquial de S. Pedro de Penaferrim, entre 1834 e 1860, pelo seu Prior e antigo monge jeronimita do Mosteiro da Penha Longa de Sintra, Frei Bernardo Pereira do Vale.

Nas épocas moderna e contemporânea, devem ainda destacar-se a presença patrimonial interventiva do Cardeal Pompeu Zambicário, Arcebispo de Sulmona e Conde Quaranta, Núncio Apostólico do Papa Júlio III junto da Coroa Portuguesa entre 1550 e 1561, bem como, finalmente, a abolição legislativa das Ordens religiosas monásticas pelo Decreto de 28 de Maio de 1834, entregando-se subsequentemente o edifício imóvel conventual e o seu inerente recheio inventariado ao Juiz de Fora e do Cível em Sintra (para ulterior leilão em hasta pública) e a Igreja à Paróquia de São Pedro de Penaferrim.

A 7 de Julho de 1834 sai o decreto que extingue as ordens religiosas e o Juiz de Fora e do Cível de Sintra tomam posse do convento. O rol dos bens móveis foram enviados à Fazenda Pública. Dois anos mais tarde, a propriedade é arrematada em hasta pública por João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun, 1º Conde, Marquês e Duque de Saldanha. A partir desta data foram vários os proprietários do convento. Recentemente a propriedade foi transformada num golf resort circundada por vários campos de golfe e a estrutura conventual encontra-se restaurada e preservada, até porque a abastada clientela desta unidade hoteleira de luxo assim o exige.

O complexo monástico apresenta uma planta irregular, composta por igreja de cruz latina, nartex rectangular e ábside curta. Inicialmente o orago principal da igreja era o de Santa Maria da Vitória, posteriormente, em data que não podemos precisar, a igreja passou a ser votiva a Nossa Senhora da Saúde. É possível que a fantástica torre lanterna cupulada que coroa o cruzeiro, assim como o transepto e a capela-mor, sejam obras de finais do século XVI, portanto executados durante o período filipino, contudo não temos fontes fidedignas que nos corroborem tal facto.

O pórtico da igreja é de uma simplicidade que pensamos fruto de um renascimento que passou por nós como que, de fugida, para outro lugar. É composto por um arco central de volta perfeita elevando-se acima dos entablamentos laterais suportados por quatro colunas dóricas assentes em bases quadradas. Este pórtico dá acesso a um pátio coberto que dá para a entrada lateral da igreja, cuja porta é sobrepujada por um nicho, já de estética barroca, e com a imagem da virgem Maria no interior.

O corpo da igreja manuelina, ao contrário do que hoje podemos observar, era abobadado em laçarias de pedra que descarregavam o seu peso em colunas adossadas e apenas tinha capelas do lado do Evangelho, consagradas a Santa Maria da Vitória, a Santo António, a Nossa Senhora da Saúde, a São José e a Nossa Senhora da Piedade, que de resto ocupava a primitiva ermida de Frei Vasco, o fundador do convento. De destacar que esta ermida ainda hoje é visitável a partir de uma porta que se abre a partir do corpo da igreja.

Na parte setentrional, adossadas à igreja, encontramos capelas laterais de formato rectangular e 2 corpos de planta quadrangular ligados por um pórtico. A Sul, um claustro quadrangular, à volta do qual se dispõem: a Oeste a sala das armas; a Sul o refeitório; a Sudeste a cozinha e a Este a sacristia; os dormitórios, de corpo longitudinal, iniciam-se na fachada Oeste e prolongam-se para a fachada Sul do conjunto. A massa de volumes apresenta-se muito bem articulada da qual sobressai a torre lanterna, de formato circular, e a torre sineira, de formato quadrangular. Telhados de duas e três águas cobrem todo o conjunto.

Como vimos, este convento estava para além da ordem religiosa que acolhia, pois era frequentado pela mais alta nobreza e pela própria realeza. O Cardeal D. Henrique, que por várias vezes assegurou a regência do reino de Portugal, foi o último membro da realeza a fazer deste cenóbio residência real. Durante a sua estadia, no último quartel do século XVI, mandou executar obras de remodelação no refeitório e criou aquele a que viria a chamar-se o Jardim do Cardeal. Durante o período filipino, o mosteiro, sobretudo no início do segundo quartel do século XVII, sofreu alguns acidentes.

No dia 1 de Dezembro de 1627 houve uma inundação, de que nos dá conta uma lápide oval, existente no vestíbulo do convento, que diz: «NA ERA DE 1627 EM O PRº DE DEZEBRO AO MEIO DIA OVVE HVA CHEA Q ALAGOV TODO ESTE COV.TO ATE ALTURA DESTA PEDRA AO PE». A água atingiu a parte conventual e a cerca tendo causado alguns estragos no interior. Durante, praticamente, todo o século XVII os vários priores, solicitaram ajuda monetária à realeza mas em vão. Só no último quartel da mesma centúria, o convento recebeu obras de beneficiação por ordem do Rei D. Pedro II. O terramoto de 1755 danificou bastante o cenóbio. Rapidamente se iniciaram as obras de restauro para erguer novamente a estrutura eclesiástica.

Segundo o Prior António de Sousa Seixas, na respectiva Memória Paroquial de 6 de Abril de 1758, o Mosteiro representava a primeira fundação jeronimita em Portugal, antes sob a invocação de Nossa Senhora da Vitória (por motivo da derrota castelhana ocorrida na Batalha de Aljubarrota), substituída pelo orago contemporâneo, face ao êxodo de população doente evadida da capital pela propagação pestífera proveniente de embarcações chegadas a Lisboa da Índia e convalescida neste local. Por outro lado, a antiga Igreja edificada em mármore era jazigo dos seus padroeiros Marqueses de Cascais e tinha uma só nave, tendo ficado parcialmente arruinada e apenas permanecido a capela-mor e as laterais do lado do Evangelho.