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1945 – O Arquitecto Norte Júnior projecta o Cineteatro Carlos Manuel

olgacadaval 02Projectado pelo Arquitecto Norte Júnior e datado de 1945, o velho Cineteatro Carlos Manuel, situado no Bairro da Estefânia, foi remodelado e transformado no Centro Cultural Olga Cadaval, inaugurado no dia 13 de Outubro de 2001, depois de ter ocorrido um incêndio em 1985.

Inserido no período áureo da construção de salas de cinema em Portugal, é um edifício de tardia feição modernista com elementos “Art deco”, enquadrável na tipologia do denominado teatro à italiana, com uma evidente sobriedade ao nível da fachada tripartida, estruturas de metal e vidro que não passam de apontamentos geométricos embebidos na parede frontal e, ao nível do interior, uma sintonia com esta proposta algo espartana que não dispensava a sofisticada qualidade dos materiais.

Ao já referido incêndio que danificou profundamente o edifício, seguiu-se um período de abandono durante o qual, eventos culturais temporários foram efectivados nos espaços ainda disponíveis, como a Trienal da Arquitectura e a Companhia de Teatro de Sintra, até que em 1987, a Câmara Municipal de Sintra o adquiriu com o fim de promover a sua reconversão e reabilitação. Nasceria, então, um espaço condigno para receber o prestigiado Festival de Sintra e outros eventos, numa altura em que Sintra fora elevada a Património da Humanidade pela UNESCO.

Com um projecto de Andrade e Sousa, no edifício em ruína recuperou-se o desenho original, reconstruindo-se a parte ardida num traço contemporâneo que se demarca do restante edifício, e estabelece-se a ligação, já pensada no projecto original, entre o Centro Cultural e o actual Museu das Artes de Sintra, antigo Casino, também ele, traçado por Norte Júnior. Assim, surgiu um novo pórtico de entrada, com uma estrutura algo monumental, relembrando os clássicos Teatros de Ópera no seu aparato, que funcionando como protecção de viaturas na entrada para o Teatro, confere uma nova escala e presença urbana ao C.C.O.C., mais adequada a nova representatividade e impacto da instituição.

Esse pórtico dá acesso a um Centro Cultural dotado de duas salas de espectáculos, com capacidade para um máximo de 1005 lugares na sala de Teatro, denominado Auditório Jorge Sampaio, e de 276 lugares na Sala de Cinema, Auditório Acácio Barreiros, com uma capacidade de receber 172 artistas em simultâneo. O novo Corpo de Cena, duplicando na vertical o volume da Cena, as duas asas do palco aproveitando toda a largura do terreno, um subpalco, ligado ao novo fosso de orquestra e as zonas de armazenamento e de trabalho, são os espaços de maior envergadura e importância para o funcionamento do grande Auditório.

Foram efectuados um conjunto enorme de melhoramentos e benefícios, nos três corpos do edifício, tendo todas as infra-estruturas sido executadas, integralmente, de novo, como todas as alimentações e ligações às redes de abastecimento, que compreenderam as instalações eléctricas, telefónicas, mecânicas, de ventilação e condicionamento de ar, a segurança, as redes de águas e esgotos, os equipamentos de bares e ascensor. Ao nível da acústica existiu, também, um trabalho de grande envergadura que se reflectiu na escolha de materiais e revestimentos, constituição de paredes, lajes e coberturas e seus isolamentos, geometria dos espaços e na especificação de vários elementos construtivos.

A nível de interiores, a decoração cumpriu-se numa estrutura espacial despojada, na valorização das texturas e dos materiais que se assumiram numa continuidade decorativa despojada de excessos. Procurou-se o belo através da homogeneidade dos materiais, das cores e do espirito das formas. Desta forma encontramos mármores beges, castanhos e pretos, obras de arte, móveis e iluminação, passíveis de condizer com o ambiente de prazer proporcionado pelo espectáculo, e uma atenção muito particular dispensada ao “foyer” principal.

Foi atribuído a este renascido edifício, o nome da grande mecenas que foi Dona Olga Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo, Marquesa do Cadaval (Turim, 1900 – Lisboa, 1996), personalidade marcante na vida nacional do século XX, a quem Sintra deve a génese do seu Festival de Música, que vê desta forma reconhecido o papel marcante que teve no panorama cultural português, graças ao seu importante contributo na divulgação da arte musical, dando nome a um espaço, com condições que só se encontram em Portugal, no Centro Cultural de Belém e no Teatro de São Carlos.

 

Jorge de Matos