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1895 – Fundação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme

efemeride-1985-bv-almocageme1A Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme comemora no corrente ano (2015) 120 anos de existência, sendo a terceira mais antiga do Concelho de Sintra. A constituição desta Associação permitiu não só aumentar o número de corporações de bombeiros existentes no Concelho, para além de Sintra e Colares, ambas formadas em 1890, como também dinamizar o seu contributo na segurança às populações, especificamente no combate a incêndios.

A génese da Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme remonta, no entanto, a Outubro de 1893, quando na sequência das festas em honra de Nossa Senhora da Graça, um foguete originou um enorme incêndio. A invulgar dimensão deste incêndio necessitou da intervenção dos Bombeiros de Colares, que foi fundamental na sua resolução, mediante a utilização da bomba. Este e outros incêndios de menores proporções levou os almoçagemenses a constituírem a sua própria corporação de bombeiros, cuja ideia foi apadrinhada por José Gomes da Silva, comerciante de Vinho de Colares e capitalista, que já tinha também incentivado a criação da filarmónica local, em 1892.

A existência de fontes iconográficas e documentais testemunham a sua fundação em 1895, ano em que foi igualmente adquirido, em segunda mão, algum material de combate a incêndios aos Bombeiros de Lisboa, salientando-se a obtenção de uma bomba flaud, carreta, chupadores, agulhetas de bronze e um alter, material utilizado pela primeira vez na noite do dia 7 de Maio de 1896, num incêndio que ocorreu numa adega de José Gomes da Silva e no qual colaboraram José Francisco Pires, primeiro patrão, que coordenou os trabalhos e José Alfaiate, que se distinguiu pelo seu empenho e coragem.

Sem espaço físico próprio, que se pudesse apelidar de quartel, os Bombeiros Voluntários de Almoçageme utilizaram, até 1948, um pequeno anexo próximo da Igreja de Nossa Senhora da Graça que lhes serviu de sede. O trabalho de combate a incêndios concretizado por estes voluntários era realizado com a ajuda dos populares, após o toque do sino da igreja a rebate.

Nas primeiras décadas do séc. XX, este Corpo de Bombeiros terá tido alguns problemas tanto a nível material como humano, considerando que em 1910 e 1913, houve necessidade da intervenção dos Bombeiros de Colares, no combate a alguns incêndios.

Entre 1923 e 1924, Francisco António Vena, como comandante, dinamizou-os em termos administrativos, materiais e operacionais. Foi inaugurada a bandeira e uniformizados os fardamentos do corpo ativo, que era constituído nesta altura por onze elementos, estreados aquando da realização dos festejos de Nossa Senhora da Graça, em Outubro de 1925, celebrando-se igualmente nesta data, a chegada da iluminação elétrica a Almoçageme.

Até 1925 a Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme esteve desprovida de estatutos, tendo estado a sua constituição legal envolvida em polémica, devido a dissidências ocorridas entre diversos intervenientes no assunto, que pretendiam a constituição da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme, visando também uma ação social e lúdico-cultural, unindo numa única instituição os Bombeiros Voluntários e o Grémio Musical.

Os estatutos da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme foram aprovados pelo Governo Civil de Lisboa em 16 de Agosto de 1926, no entanto, em termos práticos, não se verificou consenso pela sua constituição legal, dado terem-se mantido “duas associações de bombeiros” (apesar de cada uma ter responsabilidades diferentes – incêndios e salvamentos marítimos). Houve também duas filarmónicas e um Grupo Dramático.

Anteriormente, a 30 de Junho de 1926, já tinham sido eleitos em Assembleia Geral, os corpos gerentes da Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme, tendo os seus estatutos sido apresentados em 11 de Novembro de 1926, aludindo ao ano de 1895 como data da sua fundação, os quais foram complementados, na mesma data, com o Regulamento do Corpo Ativo, ambos os documentos aprovados pelo Governador Civil de Lisboa, em 3 de Janeiro de 1927. A existência de dois corpos de bombeiros na mesma localidade não foi pacífica, sendo, no entanto, efémera.

A partir de 1927, e devido a uma reestruturação regional dos bombeiros, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme foi designada como 6ª Secção, estando a sua estrutura dependente das Câmaras Municipais. O desenvolvimento desta e de outras corporações de bombeiros foi gradual, tendo sido direcionada inicialmente para a aquisição e remodelação de veículos automóveis para serviço, assim como de empréstimo de capacetes por outras corporações.

Durante os anos de 1930, os Bombeiros Voluntários de Almoçageme, devido a problemas financeiros, agravados pela perda do seu veículo automóvel e por problemas administrativos e de direção, não puderam dar continuidade efetiva ao seu labor, tendo-os igualmente impossibilitado de participar em diversas atividades. Apesar de diversos esforços de continuidade, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme esteve inativa durante oito anos, período durante o qual, o manejamento da bomba e restante material ficou a cargo de alguns populares.

No entanto, entre 1943 e 1959, com o empenho do Comandante João Pedro Caetano e com o movimento de solidariedade gerado pelos populares, este Corpo de Bombeiros foi reorganizado e reestruturado, tendo sido logo constituído em 1943, o Corpo Ativo de voluntários. A realização de atividades locais (religiosas, culturais e/ou recreativas) era frequente com o intuito de serem angariados fundos para a corporação, constituindo-se assim uma Comissão Administrativa.

Em 1945, a Câmara Municipal de Sintra e a Direção Geral de Administração Política e Civil (Ministério do Interior) atribuíram subsídios para aquisição de material e bombas necessárias ao funcionamento do referido Corpo de Bombeiros. Em 1946 foram, ainda, adquiridos um chassis e um pronto-socorro, pagos através da realização de várias subscrições públicas. Neste ano, as Associações de Bombeiros foram consideradas pessoas coletivas de utilidade pública pela Direção Geral de Assistência, afeta ao Ministério do Interior.

A Comissão Administrativa, ainda em 1946, entendeu estarem reunidas as condições para que fosse eleita pelos sócios, uma Direção, cuja constituição dos corpos gerentes, foi aprovada em 6 de Setembro pelo Governo Civil.

Foi sempre uma preocupação constante desta corporação a melhoria na obtenção de melhores veículos motorizados, bombas, meios de comunicação e ambulâncias, telefones, rádios, prontos-socorros… para uma melhor prestação de serviço à comunidade, fazendo-se sentir, cada vez mais, a necessidade de um espaço adequado para sede que permitisse receber e fazer a manutenção do equipamento. Os Bombeiros Voluntários de Almoçageme mostraram sempre a preocupação em reparar e/ou substituir material danificado, tornando-o reutilizável, com o intuito de melhorar as suas condições técnicas em prol da comunidade.

Em 10 de Junho de 1949 foi constituída uma Comissão responsável pelas obras do novo quartel, que contava com um apoio financeiro do Governador Civil de Lisboa, obras que se traduziram na beneficiação e adaptação da cave da Escola Primária da localidade. Foram, para o efeito, promovidas diversas atividades e concedidos donativos para a concretização das referidas obras, durante os anos seguintes. As obras foram lentas e faseadas, havendo em 1956 necessidade de se proceder ao alargamento do quartel nos baixos do edifício da escola.

Ultrapassando dificuldades, esta corporação deu continuidade à sua missão, impulsionada pelo empenho decisivo do Comandante João Pedro Caetano, que faleceu no dia 25 de Dezembro de 1959.

Nas décadas seguintes, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme continuou a implementar mais e melhores meios materiais, continuando a recorrer a atividades religiosas e recreativas para angariação de fundos.

Em 27 de Agosto de 1962, aquando da deflagração de um grande incêndio na Serra de Sintra, foi esta corporação a primeira a chegar ao local do sinistro, tendo igualmente participado noutros incêndios dentro e fora do Concelho, neste e nos anos seguintes.

Durante o ano de 1963, merece relevo a tentativa de implementação de um sistema de telecomunicações a nível concelhio, dotando os bombeiros com meios de comunicação eficazes, estando também previsto o seu alargamento aos Serviços Florestais, permitindo, assim, a melhor utilização dos recursos técnicos e humanos existentes, contudo este projeto não foi concretizado devido às diferentes frequências de funcionamento dos equipamentos.

A necessidade de um novo quartel era cada vez maior, tendo sido adquiridos para o efeito, dois terrenos contíguos, um em 1965 e o outro em 1966. Em 1967, numa segunda tentativa de equipar a corporação com melhores meios de comunicação, foram utilizados rádios portáteis, assim como rádios-telefones móveis.

Em 1969 foi instalada no quartel uma central de rádio, dotada apenas de equipamento básico, que lhes proporcionou grandes vantagens no combate a incêndios e a serviços de saúde. Foi neste ano que se iniciaram as obras para construção da nova sede, tendo a Associação tomado como seu protetor São João de Deus, considerado, posteriormente, patrono dos bombeiros portugueses em 1990, no Congresso de Sintra, juntamente com São Marçal.

A atuação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme tem sido notória ao longo dos anos, merecendo destaque a sua coragem e valentia no combate a incêndios e outros sinistros, não só no Concelho de Sintra como noutros locais. De referir o acidente ferroviário de 1965 e os grandes fogos florestais de 1966, 1973, 1977, 1981, 1989 e 1991 na Serra de Sintra.

Em 1975 já estavam reunidas as condições para se proceder à construção do novo quartel-sede, aguardando-se a aprovação do projeto – com risco e oferta do Arqtº Mário Brandão – assim como a concessão de subsídio a atribuir pelo Estado, no entanto, foi decidido adquirir a Quinta de São Tiago ou “Sá Nogueira”, localizada no centro da povoação, para a sua instalação, o que foi viabilizado, concretizando-se o lançamento da primeira pedra, simbolizando o arranque das obras, no dia 29 de Maio de 1977, que contemplou a construção do parque de viaturas, de novos edifícios e a recuperação do imóvel setecentista.

O novo quartel, na Quinta de São Tiago, foi inaugurado a 19 de Setembro de 1981, concretizando-se, assim, um sonho iniciado em 1943, cujas instalações incluem também posto médico, biblioteca, museu, salão nobre, jardim e parque infantil.

Em 1982 a Câmara Municipal de Sintra entrega diversas viaturas aos bombeiros do Concelho, minorando, deste modo, algumas carências. Ainda neste ano, o Comandante José Alberto Caetano entendeu estarem reunidas as condições para que fossem admitidas mulheres no corpo ativo da corporação, tendo sido incorporadas dezasseis.

A Câmara Municipal de Sintra, em 1985, atribui medalhas a diversas individualidades, entre as quais a Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme, com o grau prata.

Em 1986, as ambulâncias da região de Colares, na sequência da assinatura de um contrato com o Instituto Nacional de Emergência Médica, passam a dispor do serviço “115” e os Bombeiros Voluntários de Almoçageme passam a coordenar as tarefas de prevenção de combate a incêndios, sismos e outros sinistros nos Concelhos de Sintra, Amadora e Mafra. Esta corporação passa a dispor, em 1992, de um helicóptero para combate a incêndios na região. Em 1994, o Centro Operacional de Almoçageme passou a coordenar 25 corporações de bombeiros localizadas em cinco concelhos – Sintra, Mafra, Amadora, Oeiras e Cascais.

Presentemente, esta corporação possui diversos veículos operacionais que abrangem as suas diversas áreas de intervenção, tendo as suas valências (já referidas) sido complementadas e modernizadas com um centro de fisioterapia, posto de medicamentos, pavilhão multiusos (possibilitando a prática do desporto e iniciativas diversas). Esta corporação dispõe não só de grande diversidade de oferta em termos de assistência à comunidade como também preserva a memória histórica local.

Por último, é de salientar, a vontade, o empenho e a capacidade dos seus comandantes em ultrapassar obstáculos e a solidariedade demonstrada pelos populares ao longo dos anos, aquando da realização de atividades ou festejos com o intuito de angariar fundos para fazer face às necessidades da corporação, assim como a adesão do corpo ativo que foi aumentando gradualmente. Transformar “o velho” em “novo” foi também uma das capacidades desta corporação, testemunhada documentalmente.

Relembrar esta efeméride, pressupõe também homenagear todas as corporações de bombeiros concelhios. Os “soldados da paz” são sempre alguém a quem nos dirigimos e os primeiros a aparecer no nosso pensamento quando de ajuda precisamos.

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Basilissa Calhau

 

Bibliografia:

Caetano, Maria Teresa, Cem anos ao serviço da comunidade (1895-1995) – História da Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme, Associação dos Bombeiros Voluntários de Almoçageme, 1995.

Foi, ainda, consultado o site da referida Associação no dia 1 de Julho de 2015.