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1855 – Carta de Lei aprova o contrato para construção do caminho de ferro de Lisboa a Sintra

Efemeride-1855

Em 1854 o Conde de Claranges Lucotte, empreiteiro francês que se dedicava à construção de obras públicas, manifestou o seu interesse na edificação de uma linha de ferro entre Lisboa e Sintra, argumentando possuir um estável apoio financeiro, que resultaria da constituição de uma Companhia em Paris. O contrato assinado para o efeito a 30 de Setembro (de 1854), foi aprovado em 26 de Julho de 1855 e consubstanciado em Carta de Lei, assinada em Sintra, no Palácio da Pena, por D. Fernando II, Regente do Reino, sendo publicada no Diário do Governo nº 198 de 23 de Agosto.

De acordo com o contrato, a linha de caminho de ferro a construir obedecia a um trajeto definido, nomeadamente entre o forte marginal de S. Paulo (Lisboa) e Sintra, passando pelo Vale de Algés. Em Sintra existiriam dois ramais, um para Colares e o outro para Cascais.

Foi no dia 28 de Outubro de 1855, domingo, às 14 horas, que se realizou a cerimónia de inauguração da construção do Caminho de Ferro de Sintra, a qual teve lugar na outrora praia da Torre de Belém.

As obras foram iniciadas, no entanto, não se materializaram conforme previsto. Surgiram diversos obstáculos, tendo os problemas financeiros conduzido à dissolução da Companhia e, por consequência, à rescisão do contrato, que ocorreu em 27 de Março de 1861.

O Conde de Claranges Lucotte tentou ultrapassar os constrangimentos surgidos, incluindo as críticas desfavoráveis persistentes na imprensa. A construção desta linha férrea era não só um sonho para si como para a sociedade da época, que não conseguiu empreender. 

 

A perseverança neste sonho viria a ter outra experiência sequencial – a implementação do Larmanjat, isto é, o caminho de ferro emmonocarril. O Marechal Duque de Saldanha - João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun (1790 - 1876), após ter assistido ao primeiro ensaio do Larmanjat entre Raincy e Montfermeil, nos arredores de Paris, em 1868, efetivou diversos esforços para que este projeto fosse introduzido em Portugal, tendo as obras da linha de Sintra sido iniciadas a 27 de Maio de 1872 por uma companhia inglesa, resultando do trespasse das concessões, ocorrido na sequência do insucesso do Duque na obtenção de capitais.

A inauguração do Larmanjat de Lisboa a Sintra aconteceu a 2 de Julho de 1873. O percurso de 26 quilómetros demorava duas horas e meia a percorrer e as condições em que este se fazia eram bastante desagradáveis – os horários não eram cumpridos, as condições de locomoção das máquinas eram débeis, que se deslocavam em solavancos, derrapando e parando a meio do percurso em dias chuvosos, o ar nas carruagens tornava-se irrespirável, não oferecendo assim quaisquer requisitos de segurança aos passageiros e condutores.

Estes motivos foram bastantes para que este meio de transporte não granjeasse adeptos, aos quais foram acrescidos diversos acidentes ocorridos em 1875, provocando o términus da sua circulação em Portugal no ano de 1877.

Verificaram-se, no entanto, desde 1870 diversas tentativas para a construção de um novo caminho de ferro. Naquele ano, o engenheiro francês Thomé de Gamond, após a publicação, em Paris, do seu livro Memoire sur le projet d’agrandissement de la ville de Lisbonne comprenant l’établissement d’un grand port maritime apresentou, posteriormente, ao Duque de Saldanha os projetos referentes à implementação da linha de caminho de ferro no Concelho de Sintra, dos quais constava a construção de uma linha para Colares, por Cascais e Sintra, não havendo, no entanto, qualquer materialização neste âmbito.

A população manifestava o seu descrédito perante a viabilidade da implementação do caminho de ferro. No entanto, no dia 2 de Abril de 1887 foi finalmente inaugurada, e aberta a exploração, a linha de Lisboa (Alcântara) a Sintra, na sequência de um acordo estabelecido com a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses. Efetivamente, esta Companhia tinha aglutinado, em 9 de Maio de 1883, o anterior compromisso da Firma Henry Burnay & C.ª, na construção do ramal de Alcântara a Torres Vedras, com ramais para Sintra e Merceana. O trespasse desta concessão foi pedido oficialmente, apenas, em 15 de Maio de 1885, sendo autorizado pelo Governo em 28 de Julho do mesmo ano, mediante despacho ministerial.

A locomotiva a vapor assumiu-se como o meio de transporte mais revolucionário do século XIX, contribuindo indubitavelmente para o progresso e bem-aventurança do país, ficando a inauguração da linha de Sintra na memória histórica local e nacional.

 “A pittoresca e poética Cintra, que até aqui fazia monopólio dos seus encantos, será d’ora avante o passeio favorito para todas as classes da sociedade lisbonense, aonde ricos e pobres venham commodamente tomar o fresco nos calmosos dias de julho e agosto.” (In: Jornal de Cintra, nº 72 de 6 de Março de 1887).

Em 1887, o sonho do Conde Claranges Lucotte foi, por fim, materializado (ainda que não na sua plenitude) e Sintra foi recebendo diariamente cada vez mais visitantes ….

Basilissa Calhau

Bibliografia: Trigo, Jorge, Sintra – Caminhos-de-Ferro e Crescimento Urbano no Concelho – Contribuição para um estudo, Universitária Editora, Lisboa, 2000.

A Carta de Lei acima referida faz parte do acervo arquivístico da Edilidade Sintrense.