topo

e-sintra #5 SINTRA POSTAL: PAISAGENS DE OUTRORA

sintra postal

Mais do que um célere veículo informativo de comunicação escrita, o bilhete postal assume-se, desde a sua génese históricodocumental, como um incontornável suporte físico de indiscutível pertinência foto-iconográfica, quanto ao inequívoco registo imagético epocal de investigação e informação transdisciplinar contemporânea, nos contextos literário-mental, geoambiental, sócio-antropológico, tecnológico-patrimonial e pedagógico-cultural, bem como estético-artístico, turísticopublicitário, satírico-propagandístico e comemorativo-beneficente.

Inventado pragmaticamente pelo súbdito prussiano Von Stephan em 1865, como uma simples folha de cartolina timbrada com um selo pré-impresso e custando então menos que uma carta normal, e adoptado para correio oficial na Áustria em 1869, o bilhete postal torna-se ilustrado pela inovação do livreiro alemão A. Schwarz em 1870 e é assim comercializado desde 1875, embora sem selo pré-impresso – que apenas sucederá em 1893, na Suíça, em comemoração do cinquentenário do primeiro selo de Zurique.

Em Portugal, o bilhete postal só fora introduzido em 1878, circulando com duas taxas de 15 e de 25 reis, consoante destinado aos territórios ibéricos e às províncias ultramarinas ou aos países aderentes à União Postal Universal (posteriormente União Geral dos Correios), surgindo depois ilustrado desde 1894, na comemoração do quinto centenário
natalício do Infante D. Henrique, e a primeira emissão ilustrada nacional particular ocorreu em 1895, na comemoração do oitavo centenário natalício de Santo António de Lisboa, carecendo da aplicação colante de um selo de franquia ordinária.

Desde a sua origem europeia na civilização ocidental tardo-oitocentista, o bilhete postal revolucionou assim a tradicional comunicação escrita anterior, informalizando-a e intimizando ainda o contacto interpessoal, tal como reflectindo e mostrando, com mútua reciprocidade, o mundo a si mesmo e a sociedade a si própria, consequentemente contribuindo para o estímulo acelerante internacional da comunicação informativa multicultural entre os estados políticos e as nações étnicas, e a consciencialização populacional interventiva das identidades comunitárias territoriais nacionais, regionais e locais, além de despertar o inerente e progressivo pioneirismo cartofílico humanista de intercâmbio coleccionista e expositivo.

No caso especificamente português, além do pormenorizado registo fotográfico do nosso território metropolitano, insular e colonial, e da difusão imagética das suas expressões sócio-culturais, o bilhete postal ilustrado constitui, logo desde a sua circulação inaugural nacional em 1894, uma inquestionável fonte informativa de alimentação, expressão e recurso do imaginário colectivo tradicional autóctone, bem como o incontornável âmbito eleito volante e circulante de primorosa manifestação imagética das artes gráficas e visuais – sobretudo desenho, gravura, ilustração, aguarela e guache – sob a excelente garantia da chancela de autores célebres como José Malhoa, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro, Alfredo Roque Gameiro, Ernesto Condeixa, Carlos Reis, Veloso Salgado, Sousa Nogueira e Leal da Câmara, entre tantos outros, e transformando assim esta tipologia documental de correio num valioso artefacto reproduzido e cotado espécime coleccionável.

O projecto desta série de álbuns fotográficos Sintra postal: Paisagens de outrora começa por congregar, já neste seu primeiro de vários volumes, 76 bilhetes postais fotográficos pertencentes ao acervo documental da colecção pessoal do Dr. F. Hermínio Santos, retratando os mais emblemáticos ícones patrimoniais locais, bem como diversos outros aspectos arquitectónicos, urbanísticos, ambientais e sócio-económicos do desenvolvimento da paisagem serrana e urbana sintrense, cronologicamente datáveis entre o último quartel do séc. XIX e meados do séc. XX, e distribuindo-se por sete núcleos geotemáticos, versando as localidades de Algueirão – Mem Martins, Agualva – Cacém, Queluz, Belas, Idanha e Vale de Lobos.

Assim, viajando pela modernidade cosmopolita de Mem Martins, pela tranquilidade residencial do Algueirão, pela ruralidade dispersa de Agualva, pelo protagonismo escolar do Cacém, pelo bucolismo áulico de Queluz, pela ancestralidade autárquica de Belas e pela sofisticação hoteleira de Vale de Lobos, revisitemos sempre o nosso hoje desconhecido território sintrense de outrora.

Sintra, Maio de 2013.
Jorge de Matos
(Vereação do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Sintra)

pdf Transferir o PDF