topo

Aqueduto das Águas Livres

O Aqueduto

aqueduto

O aqueduto das águas livres foi provavelmente uma das obras mais desejadas para a cidade de Lisboa. Os planos para a sua edificação prolongaram-se por mais de um século. A grandiosidade e a complexidade do projecto obrigaram a importantes decisões, por parte de políticos e especialistas que muitas vezes não estavam em sintonia. Foi, portanto, de avanços e recuos que se completou uma das maiores estruturas jamais edificadas em Portugal.

No ano de 1571, o artista, arquitecto e teórico Francisco de Holanda deu à estampa um trabalho intitulado "Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa". Nele apresentou vários desenhos de estruturas que em sua opinião beneficiariam a cidade de Lisboa. Entre elas um aqueduto ao qual dedicou um dos capítulos da obra. A sua estadia em Itália, entre 1538/40, patrocinada pelo rei D. João III, agudizou-lhe a sensibilidade para a cultura clássica. O contacto com a cidade de Roma e, mais importante, com o genial Miguel Ângelo, despertou o arquitecto para a necessidade de fomentar a monumentalidade e o classicismo na capital portuguesa – tão em voga na cidade eterna. Quando observamos os seus planos para a edificação do aqueduto notamos de imediato essa influência clássica. Os escassos recursos hídricos de Lisboa obrigavam a que fossem tomadas medidas a médio prazo, até porque as reservas da parte oriental da cidade eram claramente insuficientes para uma população crescente. A proposta de Holanda teve em conta esse facto e a ruína de um aqueduto, situado em Belas, construído pelos romanos e que canalizava as águas a partir de um local denominado Águas Livres. Efectivamente, este local foi o ponto de partida para o actual aqueduto.

Foi a partir de 1573 que começaram a ser efectuados os estudos para a construção do aqueduto. É possível que Francisco de Holanda possa também ter estado envolvido nesta primeira fase, ainda que não haja informação nesse sentido. A pequena localidade de Belas dista pouco mais de 10 Km da cidade de Lisboa e a construção de uma estrutura com esta dimensão exige um esforço financeiro considerável. Não admira, portanto, que ao longo das décadas seguintes o projecto tenha assistido a uma série de recuos e muitas vezes a sua execução colocada em risco. O primeiro revés foi ainda na década de 80 quando a guerra em África necessitou de consideráveis fundos para se manter. Só em 1618 as pesquisas foram retomadas e desta vez de forma séria. Foram estudadas várias fontes e as possibilidades de canalizar o precioso líquido para a capital. O arquitecto Pedro Nunes Tinoco foi um dos responsáveis pelo traçado que nesta primeira fase já se encontrava tão avançado ao nível do pormenor e da concordância entre os vários intervenientes que já era cobrado à população de Lisboa uma taxa para custear a sua realização. Infelizmente, e apesar das elevadas quantias arrecadadas, o dinheiro dos contribuintes foi utilizado para outros fins, nomeadamente: na visita régia de Filipe II a Lisboa em 1619; no restauro do retábulo do altar da capela de São Vicente, na Sé Catedral de Lisboa; e para fins militares.

Nas décadas seguintes outros grandes problemas surgiram e nem mesmo a regeneração de 1640 encarrilhou o projecto. Pelo contrário parece ter sido completamente abandonado. Todavia a crescente escassez de recursos hídricos da principal cidade do país tornou inevitável a tomada de decisões imediatas perante o poder político. A primeira metade do século XVIII foi determinante para a concretização do projecto.

O Procurado Cláudio Gorgel do Amaral elaborou um projecto, aprovado pela Câmara Municipal de Lisboa, e levou-o ao conhecimento de D. João V. O pormenor era tal que até as formas de financiamento estavam previstas, inclusive os impostos a aplicar aos contribuintes. Pão, vinho, azeite, sal e palha foram os produtos aos quais foram aplicadas taxas.

A 12 de Maio de 1731 o rei assinou o alvará onde autorizou o início das obras e nomeou para as dirigir o arquitecto italiano António Cannevari, que já tinha dado provas da sua competência ao executar dois outros projectos hidráulicos no nosso país. Os confrontos entre os vários técnicos levaram a que o projecto não tivesse uma boa evolução. Logo em 1732, Cannevari pediu a demissão e abriu caminho para que vários outros arquitectos e engenheiros tomassem conta do projecto. De entre os quais destacamos o arquitecto Carlos Mardel e os engenheiros Manuel da Maia e Manuel Azevedo. Só em 1748 a água chegou finalmente à cidade de Lisboa e posteriormente canalizada por pequenos aquedutos para notáveis chafarizes e fontanários.

Com uma extensão de 14, 256 Km desde a Mãe de Água Velha até às Amoreiras, foi construído em alvenaria de calcário e cantaria. A água era transportada por acção da gravidade ao longo do percurso e a partir do aqueduto principal desviada por canais de menor dimensão para servir as populações que habitam a periferia. Nas zonas de Carenque, Reboleira, Damaia e Alcântara os canos são suportados por arcos de volta perfeita, abatidos ou quebrados, protegidos por paredes de alvenaria argamassada, com cobertura, angular, plana ou de meia cana. A ventilação é assegurada por frestas equidistantes ou por lanternins de forma rectangular ou cilíndrica com cobertura piramidal ou abobadada. Nestas estruturas o arejamento é feito por janelas rectangulares e protegidas por gradeamento de ferro.

Ao longo dos séculos a imponente estrutura foi alvo de várias campanhas de limpeza e obras de reestruturação, conservação e restauro, fundamentais para a sua preservação. Actualmente alguns dos troços estão musealizados e abertos ao público.

Localização


Ver mapa maior