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Arquitectura primitiva no território sintrense

A arquitectura primitiva

Não se pode considerar a arquitectura como uma "tradução literal da sociedade", pois, construções com significado comum podem pertencer a épocas históricas distintas. A rápida transformação dos materiais, tipologias e significados que marcam a história da arquitectura espelham os confrontos entre diferentes culturas, o contacto com as gentes de fora, através do qual são introduzidos novos materiais que actuam na transformação da arquitectura, por vezes, mais depressa do que em qualquer outro aspecto da vida em sociedade.

O papel da arquitectura varia a nível histórico, só ganha sentido quando em plena integração no sistema de práticas, crenças, mitos e normas de determinado grupo. Os recursos imediatamente disponíveis no meio, e mais concretamente, a sua limitação, condicionam o tipo de construções. A arquitectura é fruto das condições do clima e não causa delas. A arquitectura primitiva é, por excelência, a base da arquitectura popular. O tipo de construção que nasce dessa fusão de história ficou conhecida como arquitectura vernácula – feita por não-arquitectos. Recentemente, a arquitectura vernácula tem sido reconhecida como parte do património cultural em risco. Assim, através da identificação de alguns exemplares que integram o legado do património rural, procura-se alertar para os perigos de destruição desta paisagem. Com as ancestrais práticas humanas condenadas ao desaparecimento, fruto da sua desarticulação com a forma de vida actual, fruto da sua ruralidade, torna-se indispensável preservar parte desta património cultural que, até à data, sobreviveu. Algumas construções aqui analisadas, quer correspondentes à arquitectura primitiva, quer à arquitectura vernácula, têm actualmente pouca ou nenhuma utilização encontrando-se, assim, votadas ao abandono, à degradação e à consequente ruína.

As construções primitivas designam «as formas mais simples, morfologicamente elementares e cronologicamente primárias da construção, que aproveitam fundamentalmente, os materiais locais, tais como eles se encontram na natureza, ou com qualquer ligeiro afeiçoamento, segundo sistemas ou processos mais ou menos elaborados, mas de tipo arcaico e alheios a conceitos propriamente tecnicistas» (Oliveira et alii, 2006: 7). Desta definição excluíram-se as construções que utilizam telhas, tijolos, cimento ou outros materiais de origem industrial. As primeiras construções inserem-se, desta forma, no nosso conceito corrente de abrigos. Ernesto Veiga de Oliveira distingue «abrigos e construções primitivas propriamente ditas: os primeiros são construções sumárias e normalmente muito exíguas, de habitação temporária ou mesmo ocasional, em certos casos móveis (...); as segundas são edificações fixas e para habitação ou utilização permanente (...)» (Oliveira et alii, 2006: 8), cujas características variam de região para região, de acordo com os materiais disponíveis, as técnicas utilizadas, etc.

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Vista pormenorizada de um abrigo – ou “casinhola” – edificado com grandes lajes e pedra curraleira

Abrigos são construções primitivas, formas primárias, são construídos com materiais locais tais como eles se encontram na natureza ou seguindo processos de modificação ou aperfeiçoamento. Os abrigos têm tendência a desaparecer devido ao seu desconforto ou por factores locais. Ainda que as deslocações constantes não permitissem a construção de habitats permanentes, os abrigos foram a forma mais simples da vivenda humana, que actualmente funcionam apenas como abrigos ocasionais. Os abrigos podem ser de 3 tipos: naturais, semi-naturais, e artificiais. Os primeiros utilizam os materiais no seu estado natural, os segundos modificam os materiais, e no último caso eles são feitos pelo homem. Constituem abrigos temporários ou ocasionais que servem de apoio ao pastoreio e à guarda dos campos. Na freguesia estudada é possível encontrar abrigos em muros e socalcos e malhões. Os abrigos em muros e socalcos aproveitam normalmente a esquina de espessos muros que dividem propriedades, onde colocam uma cobertura de uma ou mais lajes de formas variáveis conforme os materiais disponíveis, para se abrigarem das chuvas e ventos. Os abrigos apresentados ostentam diferentes prospectos, se um deles nasceu do cruzamento de dois muros, onde foram colocadas duas grandes lajes que o "fecham", assim como uma grande laje que faz a cobertura, 1,50x1,40m, e encontra-se junto à estrada. Outro, mede aproximadamente 2X2,40m e encontra-se no meio das explorações, só tem uma grande laje que faz a cobertura, as paredes resultam da sobreposição de pedra solta. Os malhões são pequenos muros direitos ou encurvados, constituem abrigos muito rudimentares. As construções primitivas propriamente ditas dividem-se, também, em três categorias:

a) construções de planta circular, em materiais vegetais ou em pedra;

b) construções de planta quadrangular em materiais vegetais;

c) construções de planta quadrangular em pedra onde assenta a cobertura de materiais vegetais.

A base de todo o tipo de construções primitivas é a simples sobreposição de pedras de diversos tamanhos, normalmente de origem calcária, exemplo disso é o muro em pedra curraleira. De facto os muros não só marcam os limites de diversas propriedades, mas também surgem no interior daquelas, retalhando-as de molde a proteger as culturas dos ventos.

arqsintrense 2Muros em pedra curraleira

As construções de planta circular ou quadrada, inteiramente em pedra (grupo a) ganham o nome de falsa cúpula devido à sua estrutura de «fiadas de pedra dispostas, esquematicamente, em anéis horizontais que se vão sobrepondo, com diâmetros sucessivamente mais pequenos à medida que se sobe (...) a abertura central vai assim estreitando progressivamente, até se reduzir a um buraco de pequeno diâmetro, que se fecha por uma ou mais lajes chatas, pousadas sobre esse último anel» (Oliveira et alii, 2006: 146). Construções deste tipo foram utilizadas um pouco por todo o mundo, cobrindo diferentes necessidades. No caso português destacam-se abrigos para pastores, os fornos (palheiros), pocilgas e chafurdas para o gado, feitos com grandes blocos de granito, de paredes direitas. O diâmetro interior, assim como a altura variam entre os 2 e os 3 metros.

Outro tipo de construção que pode ser considerada primitiva, poderá ser o pombal. Igualmente associado à actividade agrícola, este não se insere em nenhuma das categorias mencionadas por Ernesto Veiga de Oliveira (no que respeita à região em análise) porque ganha forma de pirâmide cónica ou de planta quadrangular e pode ter vários andares divididos por grandes lajes, e porque não tem forma de falsa cúpula devido à função que cumpre. Os pombais destinam-se ao alojamento e criação de pombas. Os principais produtos desta actividade são os borrachos para a alimentação e o "pombinho" (estrume das pombas, que se acumula no interior do pombal).

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Pombais de Bolelas (arruinado), da Barreira e de Aldeia Galega

Bibliografia

OLIVEIRA, Ernesto Veiga de, et alii (2006) – Construções Primitivas em Portugal. Lisboa: Publicações Dom Quixote.