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Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Misericórdia de Belas

A Igreja

IgrParNSMisBelasA fundação da igreja de Nossa Senhora da Misericórdia de Belas remonta aos alvores da nacionalidade. O documento mais antigo que se conhece, actualmente na Torre do Tombo, data de 1220 e é uma inquirição de bens do Mosteiro de São Vicente. As primeiras estruturas religiosas coevas da fundação da nacionalidade, não raras vezes, eram votivas a Santa Maria como tal não é de estranhar esta dotação que se deve ter mantido até ao século XVI, nem tão pouco o facto da estrutura religiosa mudar de culto o que também acontecia muitas vezes.


É pouco provável que o culto a Nossa Senhora da Misericórdia tenha sido introduzido neste templo antes da fundação das misericórdias, pela rainha D. Leonor no término do século XV, não obstante o início do culto a esta santidade remontar ao século XIV ou XV. Datado de 4 de Maio de 1365 temos conhecimento de um documento de quitação de um foro à igreja de Santa Maria de Belas. Só a partir de 1583, os documentos do registo paroquial, se referem à freguesia como de Nossa Senhora da Misericórdia de Belas. Uma das principais e provavelmente a primeira grande campanha de que a estrutura foi alvo terá sido efectuada no século XVI. A gramática manuelina do portal axial, classificado como Imóvel de interesse público desde 10 de Julho de 1922, confirma-nos essa intervenção.


IgrParNSMisBelas3É de admitir que a actual estrutura tenha sido edificada no século XVI. O magnífico portal manuelino apresenta um arco canopial sustentado por dois colunelos lisos e apoiados em bases oitavadas, sendo as exteriores de maior dimensão que as interiores. Os quatro capitéis, que sustentam o arranque dos arcos, apresentam decoração vegetalista e geométrica diferenciada para cada um dos elementos. O remate do arco é feito a partir de duas estilizações de volutas invertidas e encimadas por uma espécie de globo oval, perfurado no centro, com uma cruz no topo. O conjunto do portal é encimado por um janelão, gradeado, com a data de 1860. O tímpano é simples e apresenta ao centro um monograma com as letras M e A, que pode bem corresponder às duas primeiras letras do nome da Virgem Maria. Do lado esquerdo do conjunto adossa-se a torre sineira de clara estética barroca.

O interior surpreende pela sua harmónica beleza do conjunto. A articulação entre talha dourada, azulejaria e pintura reflectem o horror ao vazio, a ostentação de poder e o profundo sentido teatral defendido pela exuberante estética barroca. Encontramos festões e folhas de acanto a revestir os painéis de madeira do tecto de caixotões que cobre a nave única do edifício. A talha dourada, dos altares laterais e da capela-mor, apresenta, igualmente, uma profusão de elementos vegetalistas. O tecto brutescado, pintado na segunda metade do século XVII, apresenta-se povoado de pequenos anjos que seguram emblemas bíblicos e se perdem por entre a abundância decorativa ignorando o observador. O programa decorativo deste tecto é muito semelhante àquele que podemos observar na igreja matriz de São João das Lampas, ainda que este apresente uma melhor qualidade plástica.


IgrParNSMisBelas2Ao longo da nave foi colocada uma barra de azulejos de tapete, datados de 1622, decorados com elementos vegetalistas e geométricos. Igualmente do século XVII são o magnífico púlpito de mármore, de forma circular, e o retábulo de talha dourada da capela-mor. O púlpito apresenta uma original balaustrada única no concelho, que normalmente apresentam uma volumetria quadrangular e nunca circular. A disposição dos elementos que compõem a estrutura arquitectónica da nave também é diferente daquela que habitualmente observamos nos templos cristãos. Em primeiro lugar a localização do baptistério – normalmente situado no fundo do templo do lado do
evangelho – neste caso situa-se do lado da epístola e muito próximo do altar lateral que antecede o arco triunfal. Muito provavelmente adaptado a partir de um altar que em 1988 deu origem a esta estrutura, de estética contemporânea, utilizando o mármore como matéria-prima de eleição. Destaque para o mosaico que se encontra na parede, datado de 1988 e da autoria do mestre Lino.


Os dois altares laterais encontram-se exactamente antes do arco triunfal realizados em talha, pintados de branco no preenchimento e a dourado o programa ornamental. Os balcões destes altares laterais foram executados em mármore branco, negro e avermelhado, articulados geometricamente. Um dos aspectos interessantes é o facto de se encontrarem virados para o centro da nave, e não para o fundo do templo como habitualmente acontece. De destacar as duas pias de água benta gomadas que se encontram adossadas às duas colunas que sustentam o coro no fundo da igreja. A capela-mor apresenta um retábulo de talha dourada, contudo diferente daquela que encontramos nos altares laterais, e uma colecção de painéis de azulejaria do século XVIII onde se apresentam vários episódios da vida de Jesus Cristo tais como: a “Natividade”, a “Matança dos inocentes”, “Fuga para o Egipto” e “O menino entre os doutores”.

Praticamente todos os mosaicos do conjunto estão pintados de azul e branco, apenas na divisão dos painéis e em duas cercaduras aparecem pintados de amarelo. As narrativas enquadram-se em espaços rodeados por interessantes estruturas arquitectónicas, que possivelmente serão cópias de pinturas ou cartões de obras mais ou menos conhecidas na época. A execução dos painéis dever-se-á a uma oficina experiente. A qualidade plástica dos elementos representados é mediana, contudo apresentam um bom tratamento ao nível dos pormenores arquitectónicos, dos panejamentos e tratamento dos rostos. O tecto da capela-mor está decorado com frescos setecentistas, de óptima qualidade plástica. Ao centro quatro pequenas cabeças aladas veneram o monograma da Virgem – representado pelo M de Maria –, encimado por uma coroa fechada e dourada. A ladear o painel central observamos quatro painéis, que representam objectos relacionados com o ritual litúrgico, e que parecem flutuar sobre pequenas nuvens.

Localização


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