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Marcas de canteiro no Palácio Nacional de Sintra

Marcas de canteiro

A Gliptografia (literalmente: “registo na pedra”) assume-se hoje como uma importante disciplina auxiliar da história da arte e da arqueologia. Um dos seus principais objectivos é auxiliar na datação de estruturas.

No caso português existem raros trabalhos sobre esta temática. Haveria necessidade de se criar um extenso e completo inventário (Corpus) que nos permitisse analisar detalhadamente as marcas existentes nos vários monumentos e daí tirar conclusões relativas aos autores das mesmas.

A edificação de estruturas militares, civis, religiosas e até palacianas na baixa idade média originou um interessante movimento de operários em toda a Europa. A construção de um edifício de grandes dimensões, como o é uma catedral, necessitava de um elevado número de funcionários especializados em várias áreas operativas. Organizados em corporações ou em indústrias de pequena e média dimensão, muitos operários circulavam pelos vários estaleiros da Europa e trocavam experiências e conhecimentos entre si. Falamos de operários altamente especializados e de outros em fase de formação nas mais variadas áreas relativas à construção de edifícios. O carácter destas corporações está ainda envolto em grande mistério. Por falta de fontes não nos é possível entender a forma como se associavam e os seus esquemas de funcionamento. Se em alguns sítios estas organizações de artífices aparecem com fins religiosos, noutros aparecem com um carácter mais técnico.

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No início estas corporações, que prestavam importantes serviços privados e públicos de elevada especialização, funcionavam totalmente independentes do estado. No entanto, pouco a pouco, os estados perceberam a sua importância e começaram activamente a intervir nas suas organizações. Em Espanha essa intervenção traduziu-se na concessão de privilégios, na autorização de porte de arma (até aí só concedido a nobres da classe de cavalaria), na autorização do uso de emblemas e na concessão de lugares em cerimónias reais. Em contrapartida os seus membros deveriam seguir o rei, sempre que este os requisitasse, e nomeadamente trabalhar para o rei sempre que este assim desejasse.

Nos séculos XIII e XIV grassavam por toda a Europa as associações de obreiros conhecidas como franco-mações (Franco = Livre/Desimpedido/Liberal Maçon = pedreiro/construtor). Guardavam entre eles segredos técnicos de construção e estabilidade das estruturas e utilizavam sinais secretos para comunicar entre eles (muitas vezes estes conhecimentos eram passados de pais para filhos originando autênticas dinastias de construtores). Conseguiram, por isso, o monopólio dos procedimentos construtivos e foram responsáveis pela sua difusão em toda a Europa. A grande ligação que estabeleceram entre eles viria a favorecer o desenvolvimento da fraternidade e da beneficência e servir como estrutura de base organizacional para a maçonaria especulativa iniciada em Inglaterra nos finais do primeiro quartel do século XVIII.

No caso dos canteiros portugueses e galegos muitos dos segredos relativos à edificação de estruturas foi passado de geração em geração de forma misteriosa. A constituição interna das corporações impunha regras muito rígidas. Por exemplo era expressamente proibido que os trabalhadores integrados numa área da corporação executassem trabalhos pertencentes a outra, garantido assim o monopólio de cada uma das especialidades. Divididos em três classes: aprendiz, oficial e mestre para se ser aceite era necessário reunir várias condições, nomeadamente: limpeza de sangue, ser temente a Deus e ainda passar num exame básico relacionado com a profissão a desempenhar. A passagem às categorias de oficial e mestre também requeria a aprovação num exame.

É sobre o trabalho destes operários e das marcas por eles deixadas nas pedras que trabalharam que versa este estudo. O francês M. Didrón dedicou-se, a partir de 1836, ao estudo destas marcas existentes sobretudo nos edifícios medievais franceses. A partir dessa data muitos outros investigadores se dedicaram ao tema. A Sigla, ou Marca de Canteiro, que assumiam variados tamanhos, é um sinal gravado, geralmente por incisão e por um cinzel ou buril, em cada uma das pedras talhadas pela mão do pedreiro canteiro que o identificava a si ou à oficina a que pertencia. Estas marcas assumiram maior esplendor durante as construções românicas e góticas da Europa (séculos XII e XV). No entanto foram, também, utilizadas anteriormente por caldeos, egípcios, persas, romanos e bizantinos. A partir do século XVI, com a diminuição das corporações, começaram também a desaparecer as siglas de canteiro. Mais tarde o seu uso foi generalizado e adoptado por arquitectos, mestre-de-obras e canteiros. Pensa-se que à semelhança do que acontecia na Alemanha, também em Portugal cada pedreiro antes de começar a trabalhar pela primeira vez numa obra, combinava e recebia do mestre ou senhor a sua sigla.

Quanto ao objectivo final destas marcas existem várias teorias. No entanto é consensual por parte da maioria dos investigadores que tinham finalidades industriais ou comerciais, isto é: podiam servir para indicar quem tinha sido o operário a trabalhar a pedra e a partir daí proceder ao pagamento pelo seu trabalho. Por outro lado, outros investigadores defendem que estas marcas nos indicam a forma como a pedra devia ser integrada no aparelho murário. O investigador espanhol Sanz Bueno[1]avança outras prováveis hipóteses:

1. O destino militar e religioso do monumento.

2. A nacionalidade e até a localidade originária dos obreiros.

3. A escola a que pertence o monumento.

4. A associação a que os obreiros pertenciam.

5. A posição social do obreiro.

6. O nome do obreiro.

7. As crenças particulares do canteiro.

8. O parentesco de alguns obreiros.

9. O número de obreiros que trabalhavam num estaleiro e o trabalho que cada um executou.

10. A época de realização da obra.

Por seu lado os arqueólogos defendem as seguintes teorias:

1. Os signos lapidários são o alfabeto de uma linguagem mágica e esotérica proveniente da magia caldeia e empregado como conjuro contra as potências inimigas e supra-sensíveis da natureza.

2. São marcas feitas pelos canteiros para o assento e o ajuste dos silhares.

3. São siglas destinadas a facilitar a liquidação e a cobrança do trabalho.

4. São marcas pessoais de cada obreiro referentes ao seu nome (inicial ou monograma), às suas crenças e devoções (um objecto simbólico ou alegórico), o seu estado social, presente ou passado (símbolo da sua profissão, ou símbolo de escravidão), a época em que se realizou a obra (um signo astrológico).

5. Podem ser uma assinatura do piedoso mecenas do elemento pétreo, de uma coluna ou de uma abóbada.”

É claro que segundo o próprio autor todas estas teorias não passam de possibilidades. Na generalidade os investigadores acreditam que estas marcas são símbolos pessoais que facilitam o relacionamento comercial e o conhecimento do trabalho do canteiro. Apenas em casos muito específicos fazem referência à obra.

A sigla permitia também prestigiar o artesão. Os pedreiros-montantes tinham que ter uma supervisão para que todas as pedras tivessem a mesma medida e assim pudessem ser integradas nos panos murais a que se destinavam. O corte de pedra nas pedreiras tornava-se assim um momento importante. O pedreiro-canteiro trabalhava a pedra já no local junto ao edifício em construção. Os instrumentos utilizados por estes profissionais eram o esquadro, as bitolas, a marreta, o pico, a maceta, o guilho, o compasso, o fio-de-prumo, o cinzel e a talhadeira. O objectivo era transformar a pedra num cubo ou numa forma paralelepipédica para posteriormente ser integrada na estrutura. A parte que ficaria à vista teria um tratamento mais cuidado e era neste local que se colocaria a sigla. As quatro faces que ficariam em contacto com os restantes elementos seriam quadriculadas mas n eram amaciadas. A face que não se via nem tinha função ficava em bruto. Aos canteiros mais habilidosos e experientes (mestre imaginário, canteiro-artista ou canteiro-escultor) cabiam os trabalhos de cariz mais artístico, e por isso mais complexo, como capiteis, frisos, mísulas, gárgulas que assumiam formas orgânicas em esculturas antropomórficas, zoomórficas, fitomórficas e geométricas. Os moldes e as bitolas para estes trabalhos eram definidos pelo responsável pelas obras – o magister operis. O modus operandi começava pelo desenho na própria pedra e a partir daí o desbaste. Toda a obra era permanentemente vigiada pelo Vedor – responsável financeiro e garante da justiça no estaleiro.

Ao longo da idade média as siglas tornam-se cada vez mais complexas. Acentua-se o gosto pelas formas alfabéticas e sobretudo pela letra florida. A partir de finais do séc. XIII muitas siglas contemplam a primeira e última letra do nome do canteiro. Outras são ideográficas representando objectos. Por exemplo se alguém tivesse a alcunha de foice podia desenhar este objecto.

O tipo de pedra utilizado na edificação das estruturas apresenta-se determinante para a preservação destas marcas. As pedras mais arenizadas ou expostas à erosão debatem-se com maiores dificuldades na preservação destes elementos.

A distribuição de trabalhadores era feita da seguinte forma: nas pedreiras trabalhavam os enxylhadores que talhavam as pedras ou silhares. No estaleiro os carreiros, que transportam as pedras, os cabouqueiros e os pedreiros (estes mais qualificados e em fase de aprendizagem tipo oficiais-de-obras) que forneciam o material aos emparelhadores e aos assentadores.

Quanto à tipologia elas podem ser as mais variadas. Na esmagadora maioria dos casos assumem forma de monogramas, formas numéricas, de cariz militar, religiosas ou geométricas, traços, linhas curvas ou ideogramas. Cada uma destas tipologias enquadra vários grupos e subgrupos.

Relativamente ao Palácio Nacional de Sintra existia já um incompleto levantamento das siglas de canteiro elaborado ainda no século XIX pelo conde de Sabugosa e dadas à estampa no Paço de Sintra em 1903. Os registos que agora apresentamos resultam de um levantamento tão completo quanto possível de todos os elementos de cantaria que constituem janelas, portas, arcos, pavimentos, etc…

Os dois quadros referem-se, o primeiro à ala joanina e o segundo à ala manuelina. Na sua maioria tanto os primeiros como os segundos apresentam letras, monogramas a partir de traços, linhas curvas e formas geométricas simples. Há casos bastante curiosos como aquele que nos representa um lagarto (existente na porta de entrada da sala dos brasões). Não foi possível estabelecer um padrão entre todo o universo de siglas recolhidas. Em certos casos existem símbolos que se repetem nas duas campanhas, nomeadamente os cruciformes. Acreditamos, nestes casos, que se trate apenas de uma coincidência. Não deixamos, no entanto, de admitir a possibilidade de se tratarem de membros da mesma família. Como vimos existiram várias dinastias de pedreiros/canteiros e por isso não podemos descartar esta possibilidade. Certo é que não pode ter sido realizada pela mesma pessoa devido à diferença temporal existente entre as duas campanhas.

Bibliografia

Benimeli, José A. Ferrer, Homenaje a D. Federico Balaguer Sánchez, pp. 81-90, s/l, 1987.

Bueno, G. Sanz, Revista de Estudios de Guadalajara, Nº. 10, pp. 407-418, s/l, 1983.

Charréu, Leonardo, As Siglas dos Canteiros Medievais – Contributo Metodológico e Bibliográfico para o seu Estudo, Revista Almadan, II Série, n.º 4, Outubro, Almada, 1995.

Dias, Pedro, A Arquitectura Gótica Portuguesa, pp. 35-40, Editorial Estampa, Lisboa, 1994.

Gimpel, Jean, A Revolução Industrial da Idade Média, Publicações Europa-América, s/l, 1976.

História da Arte Portuguesa, Dir. Paulo Pereira, Primeiro Volume. Círculo de Leitores, Lisboa, 1995.

História da Arte em Portugal, Vol. 3, Publicações Alfa, Lisboa, 1986.

Sabugosa, Conde de, Paço de Cintra, Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.

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