Círio da Nossa Senhora do Cabo Espichel
O culto a Nossa Senhora do Cabo Espichel, encontra-se revestido de diversas mitos, um deles advém de 1215/1216 e refere que durante uma tempestade, um navio britânico terá sido apanhado pelo mar revolto na zona do Cabo Espichel. Um dos tripulantes, o Padre Hildebrant da ordem de Santo Agostinho, era portador de uma pequenina imagem da Virgem Santa.
Como a intempérie não acalmava, os marinheiros prostraram-se, juntamente com o Padre, perante a Santa implorando à Virgem a sua protecção e é nessa altura que a imagem desaparece e surge no topo do Cabo Espichel uma luz a brilhar.
Entretanto, o mar acalmou e:
«Mal a manhã rompeu, os tripulantes maravilhados e agradecidos, galgaram a encosta do cabo e foram encontrar no local, onde a luz aparecera, a imagem que havia desaparecido de bordo, colocada numa das cavernas, abertas na penedia» [1].
Outra lenda refere que por volta do ano de 1400, um casal de velhinhos, cada um de sua aldeia dos arredores de Lisboa – Alcabideche e Caparica – sonharam que a Virgem Santíssima iria aparecer uma noite num local distante. Assim, sempre guiados pela fé e sem saberem um do outro meteram-se ao caminho e chegaram ao Cabo Espichel e aí ficaram até se depararem com a imagem de Nossa Senhora. Regressados às suas aldeias, nos arredores de Lisboa, depressa se espalhou o ocorrido, e rapidamente se construiu uma ermida para acolher os devotos que começaram a acorrer ao local.
Estes são dois exemplos das várias versões que existem sobre as lendas que deram origem ao culto em redor d conhecida por Nossa Senhora da Pedra da Mua – mais uma vez segundo outra lenda, devido às pegadas deixadas na rocha por uma jumenta que terá transportado a imagem a Nossa Senhora do Cabo Espichel, antes pelas rochas até ao cimo da encosta.
Todavia, o que se observa nas rochas são pegadas de dinossauros, que devido às diversas alterações tectónicas, surgem na vertical.
Segundo várias crónicas, o motivo que originou o estabelecimento dos Círios a Nossa Senhora do Cabo Espichel, terá sido uma epidemia que devastou os arredores de Lisboa, podendo-se assim inferir que estas peregrinações possuíam um carácter de gratidão muito vincado, que com o passar dos anos se foi perdendo.
|
Imagem de Nossa Senhora do Cabo Espichel na berlinda |
Nos primeiros tempos do século XIV, as peregrinações ao Cabo Espichel deixaram de ser realizadas com assiduidade. Só no princípio do século XV recomeçou a devoção com a realização de peregrinações e a construção da Capela da Memória. Em 1430, iniciaram-se os Círios anuais. Em 1606 foi fundada por 30 freguesias, a Confraria de Nossa Senhora do Cabo Espichel, que instituiu o giro da Virgem peregrina, também denominado «Círio dos Saloios» ou «Círio do Termo de Lisboa».
Até ao ano de 1751 o Círio transportava apenas uma bandeira, data a partir da qual o giro começou a carregar uma cópia da imagem. Desconhece-se a data exacta da generalização do termo Círios às peregrinações efectuadas com destino aos cabos ocidentais, contudo, pode-se acrescentar que Círio designa uma vela de tamanho incerto, que é colocada pelos devotos junto dos santuários em honra dos seus santos preferidos e aí se conservam acesas como ex-votos [2].
De grandioso interesse cultural e tradicional o cortejo dos Círios efectua-se desde tempos imemoriais. A cerimónia por norma inicia-se com a chegada do Regimento de Cavalaria da Guarda Nacional Republicana, seguida de charretes, cavaleiros, carruagens e caleches ornamentadas com flores e mantas.
A Berlinda, construída em Portugal no ano de 1740, foi uma oferta da família real a Nossa Senhora e actualmente encontra-se exposta no Museu dos Coches, sendo cedida à Comissão de Festas mediante o pagamento de um seguro especial. Acompanhada por armeiros, a Berlinda aguarda a saída da Santa ao som dos cantares de pequenos pagens.
Erguida a Imagem de Nossa Senhora pelo padre da freguesia, constitui-se então o cortejo com populares e os vários santos. Nesta comitiva, para além das Imagens dos Santos, também participam querubins, anjos, pagens, tamborileiros, principiando-se desta forma a procissão que irá acompanhar a pequena Imagem de Nossa Senhora.
Precedida da carruagem do “fogo”, da diligência do “juiz” que conduz o círio e do carro dos anjos, prossegue a Berlinda com a Imagem de Nossa Senhora. Esta, é puxada por dois pares de impetuosos cavalos com cocheiros e alabardeiros adornados com vestuário setecentista.
A seguir à Berlinda em grandiosa e aparatosa cavalgada, surgem os cavalos dos Anjos Guerreiros, o Regimento da Guarda Nacional Republicana, cavaleiras e cavaleiros trajando “à portuguesa” ou “`à inglesa”, o Delegado Juiz e os Procuradores. A comitiva progride com os anjos guiados pelos porta-guias trajados a rigor, enquanto os que transportam o estandarte, cantam louvores.
Nestas celebrações, é da tradição que as famílias mais antigas e conceituadas e seus convidados sigam após a Berlinda, em coches e charretes, adornados com cobertas e flores. O Presidente da Junta, o da Comissão de Festas e o Juiz ou Juíza da Festa, bem como familiares, são igualmente transportados em trens ornamentados.
Seguindo a pé, após os coches e sob o palio[3], irrompe a ala clerical, da qual fazem parte diáconos, acólitos e cónegos que transportam o Crucifixo Processional antecedidos pelos lampianistas que carregam candeias rubras. De seguida vêm as bandeiras e pendões, as imagens dos Santos, transportadas em andores ornados com flores.
A seguir, destacam-se as Irmandades, as Ordens, a Banda Filarmónica, os paroquianos e peregrinos que chegam de diversas partes. Cantam-se também as Loas – hinos de Louvor a Nossa Senhora, compostos por poetas populares.
A passagem da procissão é antecedida por foguetes e as varandas e janelas engalanam-se com colchas bordadas, flores, faixas coloridas. Chegada a Imagem à Igreja que a vai acolher, é celebrada uma missa em sua honra.
Posteriormente, findas que estão as celebrações religiosas, principiam-se as actividades “profanas”, nas quais o povo se junta para ver e ouvir espectáculos musicais e alimentar-se nas tasquinhas de onde exalam apetitosos aromas.
A alegria do arraial que se segue, tem muito a ver com um acto de libertação, dispõe para o entusiasmo e partilha da alegria. As Festas populares podem ser observadas enquanto performance ritual, sendo exuberantes, populares e comuns a todo um povo, e, em conformidade com o proferido por Mary Douglas «…permitem aos homens conhecer a sua própria sociedade».
O Círio e a procissão podem ser considerados, como uma unidade de integração temporal e espacial, porquanto unem os indivíduos de uma comunidade, apenas numa determinada época do ano, para a celebração desse acontecimento.
As acções religiosas, como por exemplo a missa campal…. São bem aceites pela comunidade, porque não interferem com o desencadear dos rituais ligados ao Círio e têm também, um carácter integrador, pois a simples presença do clero, é um modo de enaltecer e validar o culto popular, fazendo com que as práticas menos ortodoxas sejam justificadas.
Em suma, o Círio, a procissão e a Festa propriamente dita, enquanto performances religiosa e “profana”, têm como características, o facto de não se resumirem:
«…a sugerir a continuidade do passado, (…) pelo contrário, um dos seus traços característicos é a reivindicação explícita de comemorarem uma tal continuidade»[4].
[1] Arquivo Alfacinha: 9.
[2] «Designação proveniente da cultura romana cristianizada, é a correspondente às invocações aos deuses na antiguidade, sempre que estava iminente o perigo ou surgia a doença». [Luís Marques, 2000:195]
Assim, um ex-voto é um modo de agradecimento por uma graça concebida e traduz-se sob a forma mais generalizada, em quadros pintados (quadros votivos ou painéis) e figuras
[3]Ou Palium elemento central das procissões – Cobertura com franjas, carregada apoiada em varas, que cobre o Ministro ou Sacerdote que transporta o ostensório com a Hóstia consagrada
[4]Connerton, 1993:57,58.


