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Fonte da Sabuga

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A qualidade salutífera das águas da bica da Sabuga, de origem vincadamente medieval – o topónimo surge, pela primeira vez, num documento de 1406 –, contribuíram para que cedo se transformasse num referencial sintrense. Por isso, sobre o fontanário e a boa temperança das suas águas Juromenha escreveu, em 1838: «he a mais celebre a que está na estrada que vem de Lisboa e vai para Collares, chamada da Sabuga, pela grande frescura das suas aguas de verão e inverno.

Como estas porém algumas vezes tepidas e tão brancas como agua de sabão, o que attribuem a passar por mineral nas entranhas da terra onde nasce».

 

Esta convicção estava patente já no século XVIII, ao considerar-se, numa corografia, que, bebida em jejum, a água da Sabuga debelaria as diarreias biliosas. De facto, a sua qualidade milagreira ganhou-lhe o epíteto de «a mais cellebre» de entre todas as fontes de Sintra e nela a Rainha D. Luísa de Gusmão deliciou-se «com a famosa água» em 1652. Para o efeito, recebeu o medievo fontanário melhoramentos vários, de acordo com uma lembrança das despezas que se fizeram nesta Villa de Syntra na Entrada da Raynha N. Sr.ª, onde se despendeu «com os oficiais E trabalhadores que Consertarão a fonte da Sabuga (...) E a limparão mil e quinhentos rs.».

Logo nos alvores do evo setecentista, a fonte foi «mandada fazer de novo» como o atestará uma epígrafe anotada por Almeida Jordão:

ESTA OBRA MANDOU FAZER / O SENADO DA CAMERA DESTA VILLA / SENDO PRESIDENTE DELLA O / DOUTOR MATHIAS FRANCO / FERREIRA NO ANNO DE M.DCC.IX.

A célebre fonte, todavia, sofreu grandes estragos com o purulento terramoto de 1 de Novembro de 1755, mas foi rapidamente reconstruída, como se infere da leitura do inquérito pombalino de 1758: «huma Fonte de agoa frigidissima, chamada á da Sabuga, com duas bicas das quais cahem em hum tanque munto bom, e redificado de novo e despois de cheyo a agua» e, na verdade, uma lápide patente no frontal atesta o sucedido:

ESTA OBRA MANDOV FAZER O SENADO / DA CAMARA DESTA VILA SENDO PRE / ZIDENTE O D.R MARCELINO IOZE DE PON / TES VIEIRA E O PROCURADOR ANTO RIB / DE CEQVEIRA RIBAFRIA ANNO 1757.

Segundo o Padre Sebastião Nunes Borges e o Prior Francisco Antunes Monteiro, nas respectivas Memórias Paroquiais de 22 e 18 de Abril de 1758, a Fonte da Sabuga era rodeada de assentos de fresco e apresentava uma água muito fria, caindo, por duas bicas, num tanque muito bom e reedificado, sendo, depois de cheio, o seu caudal sobejante encaminhado para diversas fontes. Sita junto à antiga estrada de Lisboa para Colares, refere-se a frescura veraneante das suas águas tépidas de Inverno e dever-se a sua brancura ao minério da nascente.

Em termos arquitectónicos, o prospecto do fontanário resultante da restauração pós-terramoto aproxima-se bastante do actual, ainda que, em 1804, o edifício permanecesse integralmente preenchido por exuberante decoração pictórica de cariz geometrizante, nas paredes laterais, e profusas figurações vegetalistas e arquitectónicas no frontal, enquadrando a real pedra de armas. Este conjunto arquitectónico estava — como, aliás, ainda hoje se encontra — coroado por coruchéus alternados com frontões envoluteados de gosto barroco, abrindo-se, ao centro, a pedra de armas do município envolvida numa fina cercadura. 

“ANNO 1850”: esta lápide — hoje desaparecida — evocava uma outra campanha de obras, mais modesta que a anterior, mas cujo resultado é visível na litografia de W. H. Overend, também oitocentista. A Fonte da Sabuga surgiu, assim, despojada dos frescos, realçando-se, apenas, as molduras de duplo filete em meia cana que percorriam as paredes que envolvem o tanque de pedra, mantendo-se, aparentemente, a decoração do ático. Os últimos grandes trabalhos registados na Fonte da Sabuga — cuja água, nos anos de 1920, para além de ter sido vendida a copo, chegou a ser comercializada por uma firma lisbonense — datam de 1956.

Foi também naquela restauração que se colocou o lambril de azulejos azuis e brancos com putti enquadrando aparato floral.